Depois dos vôos de familiarização, na posição D na véspera e no dia do Thanksgiving, eu estava de AM Reserve (reserva na manhã, que compreende o período de 00:00h até 14h daquele dia) para aquela sexta-feira e sábado.
Lá pelas 23h da quinta-feira, olhei na minha escala e lá estava: vôo com pernoite de 24h em Puerto Vallarta - Mexico, posição A (chefe de equipe), com o resto da tripulação tudo mais senior que eu: 15 a 20 anos de empresa. Quase tive um treco.
Para notificar o pessoal da escala que eu vi que fui acionada para esse vôo, liguei para eles. Assim, pelo menos eles não me acordam de madrugada para avisar que tenho um vôo. Ah, outra coisa, uma vez acionada para um vôo, o vôo é seu e ponto final.
Falei com eles e avisei que eu era da turma nova e a primeira coisa que me perguntaram era se eu já tinha o FAA Certificate:
Eu: - Não.
Escala: - Ah, então você não pode fazer esse vôo. Vou te colocar de volta para a reserva.
Eu: - Ok. Obrigada.
Yessss! Salva pelo gongo :-) Não que eu não queira fazer esse vôo para o Mexico, muito pelo contrário. Naquela noite eu não estava preparada para isso.
Alguns minutos depois, vi que já tinham outro pernoite para mim: Spokane, aqui no estado de Washington, com apresentação 8:40h. Esse não é um dos pernoites mais atraentes... Pelo menos eu faria o vôo com outra colega de classe, a Phoebe.
Sexta-feira: começamos com um bate-volta San Jose, California. O engraçado foi que eu e a Phoebe trabalhamos juntas atrás e estávamos muito felizes com o nosso primeiro vôo de verdade. A chefe de equipe falou que ela estava um pouco de mal com a vida mas com nós duas a bordo melhorou o astral. Eu e a Phoebe estávamos sorrindo à toa.
Na hora da decolagem, no nosso assento, na posição de 'impacto' e durante 30 segundos, revisamos o procedimento em caso de emergência. Lá estávamos nós duas, sérias, decolando, e de repente o interfone voa por cima de nossas cabeças. Começamos a rir descontroladamente.
Depois que voltamos de San Jose, tínhamos uma espera de quase 3h no SeaTac (aeroporto de Seattle). Marido veio e almoçou comigo. Que lindo, não?
Ele voltou para casa depois e eu segui para o avião para fazer o vôo até Spokane. Eu e a Phoebe contínuamos no vôo mas teve troca de chefe de equipe.
Vôo curtíssimo, mas quando estávamos para pousar, o avião começa a fazer uma volta enorme.
Uma vez em terra, um frio do cão em Spokane e a van do hotel demora quase uns 20 minutos para nos buscar. E no hotel, cookies fresquinhos para a gente e como era 21h, eu só queria saber de dormir.
Sábado: apresentação 6h da manhã. Três 'pernas': Spokane-Seattle, Seattle-San Jose, San Jose-Seattle.
Tudo normal, com exceção do último trecho quando logo após a decolagem, um passageiro chama a gente ligando o botão de comissário. Na decolagem a gente não pode levantar, a não ser em caso de emergência e a chefe anunciou que, assim que possível iria para lá. Desligaram o botão. E ligaram de novo. Ok, hora de ver o que estava acontecendo. Como era mais na frente, a chefe logo foi para lá e eu cheguei logo depois. Quem tinha chamado era um casal de velhinhos preocupados com o cara ao lado deles, que estava branco e suando horrores. O cara só falava que tinha que ir ao banheiro.
Ajudamos ele e naquele momento já estávamos acima de 10 mil pés e perguntamos se havia alguém com experiência médica a bordo. Por sorte, tinha um casal de médicos. O cara ficou no banheiro por um tempo e abrimos a porta. Os médicos fizeram algumas perguntas para ele e descobrimos que o cara estava com diarréia e parecia ter uma infecção intestinal. Ele esteve na Tailândia por 2 semanas e no último dia se descuidou e tomou bebida com gelo. E sabe-se lá qual era a qualidade da água.
Deitamos ele no chão da galley dianteira e a essa altura, com um vôo lotado, todo mundo de olho no que estava acontecendo. Entregamos o kit médico e eles mediram a pressão sangüínea do cara em 70! Tomaram as providências para aplicar intravenosa e eu já estava lá com o tubo de oxigênio e administrando líquido pro cara. Os pilotos já estavam tentando contactar o MedLink mas não estavam conseguindo.
O médico, tremendo e suando também, tentou achar veia e furou o cara umas 4 vezes e não conseguiu achar nada. Por último a mulher dele tentou com a agulha mais fina que tinha a bordo e também não conseguiram.
A essa altura o cara até tinha melhorado um pouco, mesmo sem administrarem o que os médicos queriam com a IV. A pressão sangüínea estava em 90 e ele estava visivelmente diferente e falando mais também. Durante todo o vôo ele ficou no chão. Isso tudo aconteceu em 2h mas a gente não parou um minuto. Eu já estava dolorida numa das pernas pois estava agachada num espaço minúsculo entre a porta e um dos armários logo na entrada.
O cara falou que poderia sentar novamente na poltrona dele mas os médicos proibiram e aconselharam ele pousar deitado e preparamos um lugar para ele na galley, mas no lado direito (ele estava deitado no lado esquerdo). O pouso foi tranqüilo e foi solicitado aos passageiros que permanecessem sentados em solo para o médico ir até a frente da aeronave 'entregar' o cara aos paramédicos.
Durante todo o vôo, a única coisa que o resto dos passageiros receberam, foi água. E foi a Phoebe que cuidou desses 131 passageiros e todos eles, sem exceção, foram compreensivos e na hora que desembarcaram, a maioria nos parabenizou.
Foi uma experiência interessante e fico feliz de não ter sido nada mais sério mas na hora a adrenalina está a mil. É incrível como lembrei de tudo que aprendemos no treinamento. Eu já estava achando que o cara teria um infarto e já estava contando 2 respirações para cada 30 compressões. Felizmente não era esse o caso.
Não sei se somos informados sobre o que aconteceu com o cara depois. Acho que não somos notificados de nada, apenas fazemos a nossa parte em vôo. E acho que fizemos um ótimo trabalho de equipe.
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